29 de setembro de 2011

Dois

"Mas quando mais nada subsiste de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis, porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação".

Marcel Proust

Um

"Acho a vida curta demais; mal passou a juventude e já estamos na velhice. Eu queria ter cem anos garantidos e o resto na incerteza".

Madame de Sévigné

23 de agosto de 2011

Vezes Mil

Coloquei minha vida na ponta do lápis.
Somei os meus amores aos meus dissabores,
Subtraí o que eu fiz do que eu não deveria ter feito,
Multipliquei os meus erros com minhas dores de consciência e
dividi tudo pelas angústias vividas.

Resultado: Muito me resta. Me sobram força, coragem e vontade para começar do zero e transformar tudo isso em mil: Milagres.

16 de agosto de 2011

Salutar

Julho, 2011. A história abaixo foi baseada em fatos reais e construída na observação de uma cena de angústia e de esperança. Eu estava lá...

A mão que aconchegou o bebê é a mesma que retira o terço envelhecido do bolso e começa a balbuciar uma Ave Maria em compasso. Ela está sentada em um corredor movimentado por macas, pessoas e pela incerteza. A filha atravessa a porta cinza para encontrar com o bisturi e com as mãos treinadas (e talvez, milagrosas) de um homem vestido de verde, a cor da esperança. Estamos em um hospital. O silêncio deste lugar se contrasta com as batidas aceleradas do coração da mãe que compartilha a dor com a filha:

- O meu Deus, quando será que a minha filha vai ser feliz? Ajuda para que essa dor possa passar com a cirurgia.

Os olhos se encheram de lágrimas e aflitas, elas escaparam pelo rosto cansado e abatido da mãe preocupada. Ela precisava pelo menos chorar. Talvez aquele ato fosse o de maior libertação nos últimos 15 dias, quando se dedicara inteiramente a ouvir os prantos de dor da sua carne e em troca, esbanjar um sorriso como se tudo estivesse bem. Um sorriso de fé e confiança, desses que só mãe sabe dar.

Apreensiva, ela alternava as contas do terço a conversas diretas com o seu Deus. Quem olhava para ela, internamente se perguntava: O que se passa na cabeça dessa mulher? O que ela está pensando neste momento? Como está o seu coração? Respostas difíceis e complicadas de serem respondidas.

A mulher que no passado fugiu pelo amor, encontra-se amparada por uma força maior que o seu coração. Não é heroína grega, mas já enfrentou mais de doze batalhas e matou mais de um leão pelas suas crias. Aquela era mais uma. E no fundo, tinha a esperança que tudo terminaria bem. E assim seria.

Foi um pouco mais de 30 minutos que a tiraram da Terra, mas que a trouxeram de volta com um gesto que vinha do início daquele corredor. Por detrás do vidro, o médico fez um aceno e a chamou para explicar como havia sido o procedimento cirúrgico. Um suspiro. Uma evocação. Um Graças a Deus.

O suspiro se transformara em euforia. Ver aquela mulher e seus (pequenos grandes) gestos me emocionou profundamente. Ela representava um amor tão próprio e tão significante que eu não imaginava que existisse. Ela me ensinou o que é o amor por aquilo que se tem, o valor por aquilo que se ganha e a perseverança por aquilo que se espera. Perseverança que se traduzia numa fé inesgotável, numa confiança inabalável e em um amor sem medidas. Um amor que transcende o existencial. Uma vida dedicada por outra.

20 de junho de 2011

Ata

Acho que ser inseguro é um mal que compartilho com o resto do mundo. Não sou premiado, muito menos impotente por isso. Tomar decisões me toma o tempo e o juízo. Eu procuro uma forma, um lugar, um jeito para ordenar as coisas que aos montes se misturam na minha cabeça. Nada mais que isso. O meu problema está em pensar demais nos outros, na vida, no que não me pertence, no que não me diz respeito, na dívida que não é minha. Eu acabo escrevendo o meu "eu" numa notinha de roda-pé e o texto em si acaba por ganhar conteúdos que não me pertencem. A proposta é inversa. É egoísta pensar assim, mas a prática é essa. Eu olho para o amanhã com a certeza daquilo que sempre me pertenceu e não com as dúvidas decorrentes das experiências pelas quais passei. Isso é renúncia? Não sei. Aliás os juízes de plantão sintam-se a vontade para proferirem suas sentenças, que para bem da verdade nem me interessam. Deixa eu garantir o meu direito de ir e vir, de acreditar e desacreditar, de gostar e desgostar num estalo de dedos. Isso é normal, o estranho é viver todos os dias as mesmas coisas. Pois bem, todos devem. Uns pagam com a consciência, outros com a consequência e uns não tão nem aí. E esses é que sabem viver (pelo menos aparentam). Não estou comprando briga por ninguém, nem transformando as minhas mãos em cinza, só estou (cada vez mais) confirmando o que eu sempre acreditei: o minuto seguinte é o tempo necessário e suficiente para começar uma (nova) vida, sem se importar e se dar conta do que aconteceu. O que importa são as histórias que serão escritas do instante para frente: na vida, no ser, no homem. Este camaleão.

17 de maio de 2011

Be happy

Hoje pelo caminho encontrei com uma garota que aparentava ter no máximo uns 22 anos. Apressada, ela atravessava a rua e gritava pelo telefone alguma coisa. Só consegui captar algumas das várias palavras que ela soltava gritando: " - Não tenho tempo para mim, nem comer direito eu estou comendo, está complicado...". Ouvi, parei e vi que não era o único que tinha birra com o tempo, pensei em estender a mão, mostrar solidariedade, compartilhar a mesma angústias, mas eu tinha um compromisso naquele instante, aliás, eu já estava atrasado... O resultado é que estamos cada vez mais atolados de tarefas inúteis, que consumirão 80% do nosso dia, e o que realmente importa, os 20% relativos a cervejinha no bar com os amigos, o momento do jantar com a família e o momento carinhoso com quem se ama, ficam reservados como carta na manga. Aquela carta que nós só vamos tirar quando a gente ver que o que não importa, consome mais do que a gente pensa. E assim nós vamos construindo nossa potencialidade sendo medidos pela nossa capacidade de articular da maneira mais rápida e mais eficiente o nosso planejamento diário. Falei difícil? Não. Você também está mergulhado nesse mar de medidas: o bom de serviço, o melhor da empresa, o mais eficiente e qualquer rótulo criado pela modernidade. O tempo corre num piscar de olhos, passa sem a gente perceber, apenas vai e quando a gente se dá conta ele foi. A gente sacrifica agora, se mutila agora e deixa para curar a ferida depois, é o mais do mesmo: o mesquinho de hora marcada, com pontualidade inglesa e que tem sempre o que fazer - e não fazemos nada pois não sabemos a hora que o relógio vai parar. Que os ponteiros continuem girando por um bom tempo, marcando momentos bacanas numa jornada digna e divertida: "don't worry, be happy!".

16 de maio de 2011

Do retorno

Como o pano lustra o móvel e remove a poeira, ao poucos vou retornando para esse universo. É difícil estar longe de um espaço no qual você é o construtor. E olha que nos últimos meses o que não me faltou foram histórias, angústias e reflexões. Aos poucos eu vou voltando, um pequeno texto, uma pausa para um crônica, um debate, um artigo, uma vontade desmedida de escrever. Simplesmente escrever. Escrever sobre a vida, sobre o amor não resolvido, sobre o trabalho infantil, sobre o excesso e a falta, a vontade e a falta de tempo, o retorno ao paraíso. Me basta passar para as palavras o que excede a razão e sobretudo, o que reina no coração. Um discurso meio empobrecido mais que vale a riqueza da chamada experiência, ou simplesmente: vida. É isso, a gente sai mais volta, a gente roda o mundo mas não esquece da origem. Novamente aqui estou.