29 de dezembro de 2011

Do ato de escrever

Escrever não é algo muito fácil, a não ser que você quer escrever qualquer coisa. E mesmo o qualquer coisa exige tempo, assunto e vontade. O poeta já cantou que escrever é como lapidar uma pedra. É um trabalho cansativo, desgastante, buscando as palavras certas para as lacunas certas. Encaixando as ideias, as vontades, os pensamentos, que sabe até encaixar os batidos do coração. Escrever vai além de dom. Jogar com as palavras é um jogo de experientes. Na mesma intensidade que elas vêm, elas somem. Agarrá-las é um quase um trabalho de Hércules. Aliás, o que seria deles se alguém não registrasse os seus doze. Escrever está para o homem, assim como o corpo está para a alma. A gente viaja sem sair do lugar, inventa uma mentira quase verdadeira e finge acreditam em tudo que a gente mesmo faz. Um toma lá da cá sem consequências ou com final trágico. Se malha mais escrevendo do que fazendo atividade física, e quem gosta do ato, comprova. A gente pode rir, chorar ou gargalhar. É mais fácil um camelo passar em uma agulha, do que as palavras encaixarem perfeitamente num texto, ou chegarem prontas, sem suor, sem sinônimo ou coisa parecida. É um ato de coragem, de bravura, de força. Escrever está além das entrelinhas, é um desafio.

28 de dezembro de 2011

Ano velho

Li esse texto em meados de agosto de 2010. Na aula de antropologia, nosso professor nos presenteou com essa bela reflexão. Este é um momento propício para lê-lo novamente e compartilhá-lo aqui.

Somos como o ano velho, por isso tememos o novo (Artur da Távola)

"O que eu estou fazendo com as minhas partes que ficaram paradas? O que você está fazendo com as suas? O que estou fazendo para renovar o que há de antigo em mim, tão arraigado que até já o suponho convicção? O que você está fazendo com o que há de antigo em você, e que talvez se exteriorize com a aparência de ser o mais moderno?
Somos como o ano velho. Como um montão de anos velhos acumulados. Vivemos a repetir o que já sabemos, o que já experimentamos. Repetimos, também, sentimentos, opiniões, idéias, convicções. Somos uma interminável repetição, com raras aberturas reais e verdadeiras para o novo, do qual cada instante está prenhe. Somos muito mais memória do que aventura. Somos muito mais eco do que descoberta. Somos muito mais resíduo, do que suspensão. Somos indissolúveis, pétreos, papel carbono, xerox existencial, copiadores automáticos de experiências já vividas, fotografias em série das mesmas poses vivenciais. Somos um filme parado com a ilusão de movimento. Só acreditamos no que conhecemos. Supomos que conhecemos. Supomos que conhecer é saber.
O ser humano é feito de tal maneira inseguro que a tendência é sempre a de reter experiências e fazer da vida uma penosa e longa repetição do já vivido. O ser humano adora repetir. Ele precisa repetir, porque não está preparado para o novo de cada momento, para o fluir do todo na direção da transformação permanente. Ele é uma unidade estática e acumuladora, num cosmo mutante e em permanente transformação.

Aceitar a mudança e a transformação é ameaçar tudo o que o homem adquiriu e guarda com avareza, para tentar explicar a realidade e a vida. Mas cada vez que o ser humano usa o instrumental guardado com tanta avareza para explicar o real, este já se transformou e o que antes era eficaz, novo, “descoberta importante”, logo se transformou numa informação parcial, num mero dado da realidade. Essa é sempre grávida de transcendência.
Aí está o grande dilema: para explicar o real só temos a nossa experiência anterior, mas só é válida no momento de sua revelação. Um segundo depois já ficou parcial, relativa, incompleta. Não temos, então, instrumental de aceitação do novo e o que temos fica mais velho e superado a cada aplicação. Por isso é mais cômodo, fácil e simples para o ser humano cair na repetição do que já é, do que já sabe, do que já viveu. Ele chega a chamar isso de “conhecimento”, quando é, apenas, cristalização de um saber anterior.
Por isso o ser humano tende tanto ao conservadorismo: atingida uma conclusão, montado um sistema de interpretação da realidade, logo o ser humano se aferra a ele e, numa extensão, aplica-o a todo o real. Se o sistema é lógico, então a mente racional se satisfaz e com isso o homem se supõe portador de uma verdade. Aferra-se então a ela, passando a ser um de seus
defensores. Cria, a partir da verdade na qual crê, e passa a repetir escolas de pensamentos, doutrinas, religiões, ideologias, esquemas de interpretação da realidade, correntes, seitas, crenças, opiniões, convicções e até fanatismos. Cria uma espécie de dependência das próprias verdades. Passa de senhor a escravo. E quanto mais escravidão mental, mais sensação de liberdade.
Sim, somos viciados nas próprias crenças, dependentes das próprias verdades, toxicômanos das próprias convicções. E, como ocorre em todas as dependências, precisamos repetir nossas verdades para que não caiamos no pânico da dúvida, na ameaça da mutação. Inventamos uma pacificação ilusória e grandiloquente. Seu nome: Coerência. Coerência passa a ser uma grande virtude. “Fulano, conheço-o há trinta anos. Sempre na mesma posição. Tipo coerente está ali”. E assim saudamos alguém que parou no tempo, que tão logo ganhou uma convicção, fechou-se a todas as demais.
Assim na crenças, assim nas idéias e assim, também, nos sentimentos, nas vontades e nos hábitos. A rigor não sabemos o que estamos fazendo para renovar o que há de antigo em nós. Em geral, nada. Não me refiro ao que há de permanente, pois o ser humano é feito de permanências e provisoriedades.
As permanências (ligadas às essências) devem ficar. Mas as provisoriedades que se tornam antigas, paradas e repetitivas e que ali estão remanescentes por nossa preguiça de examiná-las ou por nossa incapacidade (ou medo) de removê-las, estas precisam ser revistas, checadas, postas em discussão, em debates e arejamento.
Assim vejo o Ano Novo. Como a esperança dessa renovação, que tem nome: criatividade. Criar é manter a vida viva. Criar é ganhar da morte. Morte é tudo o que deixou de ser criado.Criatividade é, pois, imbricado no conceito da vida. Não há como separar os dois conceitos. Vida é criação e criação é vida. Só criatividade nos dará possibilidade de solução para cada desafio do novo. As soluções jamais se repetem. Nós é que nos repetimos por medo, comodismo ou burrice. Adoramos repetir, tememos renovar, por isso tanto sofremos."

E aqui, faço um convite: Que fazer tudo novo em um ano novo?

27 de dezembro de 2011

Sem pressa

Uma noite de chuva. Um sono perdido. Um nome na cabeça. Palavras desenhadas à caneta:

"Nada é tão simples, assim se pensa.
Todos acreditam que podem mudar: hoje e amanhã,
agora e por todo sempre...
Mas ninguém espera, pois,
a pressa é inimiga da transformação!"

25 de dezembro de 2011

Natal é tempo...

Que o Natal seja um tempo de mudança. No hoje, no ontem e no sempre. Que o nascimento do Menino Deus seja de fato, o verdadeiro motivo da celebração. Vamos olhar para o gesto e a simplicidade da família de Belém não apenas por uma data, mas fazê-la referência em nossa caminhada no dia-a-dia. Que Jesus nos acompanhe, sempre. Feliz Natal.

19 de dezembro de 2011

Ensaio

Na verdade eu cansei de depositar nas viradas de ano a oportunidade de mudar a vida. Muda-se o tempo todo, até a roupa a gente troca. Azul, vermelho, verde. Nada como um amanhã incerto, de sonhos certos, de desejos complexos, de vontades livres, de amores impossíveis, ou até possíveis. Um sol, uma lua. Uma noite e um dia. Nada mais que uma transição de tempo. Um piscar, um olhar, um sorriso, um beijo. A hora do ser está no agora. No ato, no fato, no imediato. Naquilo que a gente pode tocar ou pelo menos vive, responde, está ciente. Um bom dia, um boa noite, um até logo, um adeus. Para recomeçar não nos falta estímulos, a vida mesmo nos ensina. Na lousa escrevo os desejos para uma vida nova. Na mente rabisco as más sensações. No coração levo o que me sustenta, o que me mantém de pé. O velho se vai, como a vida um dia irá. Misteriosa e sem rodeios. Pego as tralhas, respiro, levanta a cabeça e continua a caminhada. Novo, novidades, novidadeiro. É passagem constante e não um 365º que se torna 1º. É um dia (todo dia) para se renovar.

2 de novembro de 2011

Respostas

O peso do sim e do não nos ajuda a escrever os próximos capítulos do enredo. Às vezes a gente se pega ao incerto, às expectativas e vai criando meandros que fogem do fluxo do rio. Não ter respostas é nadar, nadar e não atravessar o mar. É afogar em sentimentos que poderiam ser evitados por simples monossílabos. Além de ser mais objetivo, ter respostas é vital. Prefiro a certeza do vai ou racha, do que a ânsia e a fantasia do talvez. A gente sofre menos, a gente é mais dinâmico e corre atrás do que verdadeiramente é importante e nos faz bem. Difícil é decidir, difícil é tomar partido. Nada mais que um critério de seleção. Um rumo a ser tomado. Respostas que cortam o tempo e o espaço e desviam as direções dos passos.

31 de outubro de 2011