20 de junho de 2011

Ata

Acho que ser inseguro é um mal que compartilho com o resto do mundo. Não sou premiado, muito menos impotente por isso. Tomar decisões me toma o tempo e o juízo. Eu procuro uma forma, um lugar, um jeito para ordenar as coisas que aos montes se misturam na minha cabeça. Nada mais que isso. O meu problema está em pensar demais nos outros, na vida, no que não me pertence, no que não me diz respeito, na dívida que não é minha. Eu acabo escrevendo o meu "eu" numa notinha de roda-pé e o texto em si acaba por ganhar conteúdos que não me pertencem. A proposta é inversa. É egoísta pensar assim, mas a prática é essa. Eu olho para o amanhã com a certeza daquilo que sempre me pertenceu e não com as dúvidas decorrentes das experiências pelas quais passei. Isso é renúncia? Não sei. Aliás os juízes de plantão sintam-se a vontade para proferirem suas sentenças, que para bem da verdade nem me interessam. Deixa eu garantir o meu direito de ir e vir, de acreditar e desacreditar, de gostar e desgostar num estalo de dedos. Isso é normal, o estranho é viver todos os dias as mesmas coisas. Pois bem, todos devem. Uns pagam com a consciência, outros com a consequência e uns não tão nem aí. E esses é que sabem viver (pelo menos aparentam). Não estou comprando briga por ninguém, nem transformando as minhas mãos em cinza, só estou (cada vez mais) confirmando o que eu sempre acreditei: o minuto seguinte é o tempo necessário e suficiente para começar uma (nova) vida, sem se importar e se dar conta do que aconteceu. O que importa são as histórias que serão escritas do instante para frente: na vida, no ser, no homem. Este camaleão.

17 de maio de 2011

Be happy

Hoje pelo caminho encontrei com uma garota que aparentava ter no máximo uns 22 anos. Apressada, ela atravessava a rua e gritava pelo telefone alguma coisa. Só consegui captar algumas das várias palavras que ela soltava gritando: " - Não tenho tempo para mim, nem comer direito eu estou comendo, está complicado...". Ouvi, parei e vi que não era o único que tinha birra com o tempo, pensei em estender a mão, mostrar solidariedade, compartilhar a mesma angústias, mas eu tinha um compromisso naquele instante, aliás, eu já estava atrasado... O resultado é que estamos cada vez mais atolados de tarefas inúteis, que consumirão 80% do nosso dia, e o que realmente importa, os 20% relativos a cervejinha no bar com os amigos, o momento do jantar com a família e o momento carinhoso com quem se ama, ficam reservados como carta na manga. Aquela carta que nós só vamos tirar quando a gente ver que o que não importa, consome mais do que a gente pensa. E assim nós vamos construindo nossa potencialidade sendo medidos pela nossa capacidade de articular da maneira mais rápida e mais eficiente o nosso planejamento diário. Falei difícil? Não. Você também está mergulhado nesse mar de medidas: o bom de serviço, o melhor da empresa, o mais eficiente e qualquer rótulo criado pela modernidade. O tempo corre num piscar de olhos, passa sem a gente perceber, apenas vai e quando a gente se dá conta ele foi. A gente sacrifica agora, se mutila agora e deixa para curar a ferida depois, é o mais do mesmo: o mesquinho de hora marcada, com pontualidade inglesa e que tem sempre o que fazer - e não fazemos nada pois não sabemos a hora que o relógio vai parar. Que os ponteiros continuem girando por um bom tempo, marcando momentos bacanas numa jornada digna e divertida: "don't worry, be happy!".

16 de maio de 2011

Do retorno

Como o pano lustra o móvel e remove a poeira, ao poucos vou retornando para esse universo. É difícil estar longe de um espaço no qual você é o construtor. E olha que nos últimos meses o que não me faltou foram histórias, angústias e reflexões. Aos poucos eu vou voltando, um pequeno texto, uma pausa para um crônica, um debate, um artigo, uma vontade desmedida de escrever. Simplesmente escrever. Escrever sobre a vida, sobre o amor não resolvido, sobre o trabalho infantil, sobre o excesso e a falta, a vontade e a falta de tempo, o retorno ao paraíso. Me basta passar para as palavras o que excede a razão e sobretudo, o que reina no coração. Um discurso meio empobrecido mais que vale a riqueza da chamada experiência, ou simplesmente: vida. É isso, a gente sai mais volta, a gente roda o mundo mas não esquece da origem. Novamente aqui estou.

22 de março de 2011

Primeiro ato

E aí a gente para a vida para fazer um exame de consciência. Vai recolhendo os cacos dos fragmentos que restam. O vidro caiu no chão e se partiu, o mundo fechou as portas e as pessoas já não são como antes. Eu que estou muito para baixo ou os sinas dos tempos já começam a se manifestar? Me perguntou o porquê de se perguntar, de se questionar o mundo e seus desdobramentos. A verdade é que cada um cava a profundidade de seu próprio poço.

21 de março de 2011

Conselhos de Pessoa

Já faz mais de 70 anos que Fernando Pessoa morreu. O escritor português que escrevia sob vários pseudônimos imortalizou sua poesia e é admirado por muitas pessoas. Hoje, ao receber a minha Revista Época, me deparei com uma interessante matéria escrita pela jornalista Norma Curi falando sobre o poeta e a mais nova biografia que será lançada sobre ele. Escrita por um amante incondicional de Pessoa, a obra chega muito em breve as livrarias com o título: Fernando Pessoa, Uma quase autobiografia - José Paulo Cavalcanti. A respeito do autor, reproduzo o que a matéria em Época trouxe sobre sete conselhos escritos pelo autor. Já dizia que se conselho fosse bom não se dava, se vendia, mas talvez os de um poeta mereçam a nossa leitura e a nossa reflexão.

Os 7 conselhos de Fernando Pessoa

1- Não tenhas opiniões firmes nem creia demasiadamente no valor das tuas opiniões
2- Sê tolerante porque não tens certeza de nada
3- Não julgues ninguém, porque não vês os motivos e sim os atos
4- Espere o melhor e prepara-te para o pior
5- Não mates nem estragues porque não sabes o que é a vida, exceto que é um mistério
6- Não queiras reformar nada, porque não sabes a que leis as coisas obedecem
7- Faz por agir como os outros e pensar diferentemente deles

27 de fevereiro de 2011

Desacostumando acostumar

Entre o pensamento e a ação se misturam nêutrons de coisas variadas. A gente pode tudo, mas ao mesmo tempo não pode nada. Hoje eu poderia escrever um texto de minha autoria por exemplo, mas falta a "bendita" inspiração. E olha que motivos não me faltam. Me deu vontade de postar, mas faltou a manha, como se diz no popular. Foi aí que lembrei de um texto da Marina Colassanti que li pela primeira vez em 2005. E é ele que vou reproduzir aqui. Faço dela, as minhas palavras. E espero que a inspiração venha em breve...

Vamos sair das acomodações. Um 360º na vida!

A GENTE SE ACOSTUMA

Marina Colassanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e não ver vista que não sejam as janelas ao redor. E porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma e não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, se esquece do sol, se esquece do ar, esquece da amplidão.

A gente se acostuma a acordar sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: “hoje não posso ir”. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que se deseja e necessita. E a lutar para ganhar com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes. A abrir as revistas e ler artigos. A ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição, às salas fechadas de ar condicionado e ao cheiro de cigarros. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam à luz natural. Às bactérias de água potável. À contaminação da água do mar. À morte lenta dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta por perto.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta lá.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua o resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem muito sono atrasado.

A gente se acostuma a não falar na aspereza para preservar a pele. Se acostuma para evitar sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

16 de fevereiro de 2011

Cruzada

Um dia atípico, uma noite agradável, num ambiente mais seu do que meu. Ao longo das semanas, eu arquitetava estratégias para poder te encarar e olhar em seus olhos (ou talvez evitar) depois de tudo. O resultado é que eu sou um desastre. Nem plano, nem atitude, nem nada. Eu apenas repeti todas as coisas e agi da mesma maneira que fui até aqui. Eu no meu castelo protegido de armas e justificativas (as mais banais possíveis), cercado por armaduras e soldados de aço, me coloquei na ostensiva mais uma vez, e nada. Parece que a nossa história está fadada as mesmas repetições, aos mesmos acontecimentos destes nossos encontros desencontrados. Você com o coração maior do mundo querendo oferecer tudo o que eu sempre quis ter. E eu, me esquivando, defendendo, contra-atacando na diagonal e escondendo por trás deste aparato de segurança. Seria fácil se fosse cartesiano, mas não é. Entre o céu e terra jorram possibilidades mil, mas por acaso ou obra do destino elas não conspiram ao nosso favor. Parabéns. Você conseguiu atravessar os muros, driblar a segurança e está com a mão na coroa. Talvez você não entenda, ou talvez nem queira mais entender. Talvez, você prefira ouvir o som daquela banda de garagem que ninguém suporta a escutar os meus lamentos. As minhas palavras se perderam, eu me perdi. Eu queria conseguir dizer pelo menos alguma coisa. Alguma coisa que eternizasse o momento, que eternizasse a fala, que sei lá, me eternizasse em você. Mas não, eu saio do ataque e volto para a zaga. É que sua presença mexe comigo, é que você está mais presente que eu imaginava, é que as coisas não são do jeito que a gente quer, porque na prática dois mais dois pode ser cinco, seis ou até sete. É questão de percepção. O perdedor sou eu, o ingrato também. Permita-me apenas reconhecer o meu erro. Não me leve a mal. Foi eu que esqueci de acrescentar alguns ingredientes do bolo, ele ficou amargo. Agora quem degusta este saboroso dissabor sou eu. O infeliz e não menos apaixonado por você.